Monday, February 17, 2014

As pressões desta era

Francamente, não vejo muita vantagem em viver além dos cem anos de idade. Muita gente hoje comemora isto, a extensão da longevidade, como uma conquista da ciência médica, porém, convém lembrar que como sempre ocorre nas últimas décadas, a lerda sociedade não acompanha o ritmo da ciência.

Hoje tenho 53, portanto, ainda faltariam 47 anos para chegar na idade mágica. Tenho dez graus de miopia e problemas auditivos nos dois ouvidos, portanto, salvo se a ciência médica colaborar, com a proverbial ajuda do bolso, teria uma velhice um tanto desprovida de benefícios sensoriais. E sabe-se lá o que mais.

Voltemos ao bolso. Provavelmente consigo trabalhar num ritmo próximo do meu atual até os 75 anos. Ou seja, teria uns 25 anos para desfrutar de descanso bem merecido. Agora, quem pagaria a conta da minha aposentadoria? Seria descanso mesmo, ou aporrinhação ad extremis?

Do jeito que estão indo as coisas, as aposentadorias públicas, se ainda existirem daqui há uma duas décadas, estarão bastante desprovidas do seu valor integral e serão pagas meio à toque de caixa, mais desvalorizadas do que o nosso surreal real. Certamente não vão dar para comprar muita coisa, se não forem completamente aniquiladas por algum governo banzai. Sendo assim, teria que viver, sem trabalhar (ou trabalhando pouco), da pouca aposentadoria e economias ganhas durante meus anos produtivos. Coitado de mim.

É bem possível que ocorra algum bom incidente de percurso, e de repente, possa desfrutar da idade de ouro, e não de idade de ourina. Porém, é preciso ser realista, acima de tudo. E a realidade é sombria, não só para mim, como para grande parte da humanidade.

Sim, a medicina alongou a expectativa de vida das pessoas, porém, embora muitas pessoas estejam durando até 100 e pouco, a grande maioria ainda continua bastante debilitada ao chegar nos 70 e poucos anos. A medicina não conseguiu aumentar tanto assim o vigor dos idosos. Há excessões, porém excessões sempre existiram, até na insalubre Idade Média. A esmagadora maioria não tem condições de trabalhar ao se tornar octogenário, e assim, tem que viver do que sobrou.

Outra coisa. A herança tem sido, há séculos, um dos maior propulsores de expansão econômica do mundo. Um bom empreendedor consegue multiplicar seu quinhão muitas vezes. Sim, há os gastões, que aniquilam verdadeiras fortunas em alguns anos. Porém, muitos dos self-made man do mundo na realidade, tiveram uma nada insubstancial ajuda de um imóvel aqui, uma fazenda acolá, e montaram seus impérios assim. O folclore nos diz que saíram do nada, porém, do nada não saíram. Oras, o que vai ocorrer quando as heranças começarem a ser herdadas, no atacado, por senhores de 70 anos, já sem o vigor para montar impérios? Parece cruel falar sobre este assunto, porém, não estou querendo ganhar concursos de popularidade com este post ou este blog.  

E há outras pressões. Pressão para obter níveis cada vez mais altos de educação, que significa ficar mais tempo na escola e entrar mais tarde no mercado de trabalho, e ao mesmo tempo pressão para se aposentar mais cedo, pois todos sonham em se aposentar mais cedo! A relação entre aposentados e contribuintes é crítica em diversos países, em grande parte por que os países trataram seus sistemas de seguro social como esquemas de Ponzi, e não deveria ser assim. Até o Brasil, sempre conhecido como um país de "jovens", será um país com muitos idosos daqui uns 20 e poucos anos, com cada vez menos jovens contribuindo.

Ou seja, há tanta coisa a festejar assim?

Esqueçamos os sistemas de aposentadoria oficiais, e concentremo-nos nos fundos de pensão. Estes administram verdadeiras fortunas, e estão, assim como todo mundo, em busca de investimentos que valham a pena. Sendo assim, trilhões de dólares são investidos por fundos de pensão em empresas de capital aberto e private equity no mundo inteiro. Estes fundos de pensão não querem ser acionistas só por causa da valorização ou prestígio das ações - buscam ganhos em forma de dividendos, e na realidade, forçam as empresas a dar lucros às vezes irreais, pois os fundos precisam de grana para pagar seus pensionistas, cada vez mais bufunfa. Sendo assim, estes fundos frequentemente forçam estas empresas a dar cada vez mais lucro, e um dos artfícios administrativos mais frequentemente usados é a dispensa de milhares e milhares de funcionários, a temível redução do overhead ou downsizing.  Ou seja, paradoxalmente, os fundos, que visam proteger o futuro dos seus milhares contribuintes, achatam a realidade de outros milhares de pessoas, em diversos países. Sendo que os prejudicados são sempre mais do que os beneficiados.

Há também a questão saúde. Vivo no país que se orgulha de ter o melhor sistema de saúde do mundo. Disso não sei. Verdade que muitos dos melhores hospitais do mundo cá estão, porém, até dizer que o sistema como um todo é bom, acho prá lá de otimista. Uma recente resenha dos 50 melhores hospitais americanos, em dezenas de categorias, revelou uma triste realidade. Dos 4900 e poucos hospitais classificados, somente 130 e pouco foram incluídos no top 50 em uma ou outra categoria. Ou seja, cair num hospital rural em South Dakota ou em Detroit pode ser tão perigoso quanto ser tratado em um hospital mediano brasileiro.

Sem contar que aqui qualquer médico meia boca se acha qualificado para cobrar 300 dólares ou mais por uma consulteca de 10 minutos. Isto depois de ter passado três horas na sala de espera cheia. E depois os médicos dizem que não estão ganhando grana. Não entendo muito bem essa equação...

Voltemos ao fulcro da questão. Mesmo vivendo até os 100 anos, muita gente idosa dobra o Cabo da Boa Esperança aos 80 e pouco. Isto se for de uma classe social mais abastada, pois os mais pobres, se chegarem aos 80, passarão anos terríveis.

Hospitais como lugares de cura são uma coisa nova na história da humanidade. Não é coincidência que até recentemente, a maioria das pessoas nascia em casa, pois hospitais eram lugares onde o gajo ia morrer, nas casas, nasciam. Os hospitais eram os purgatórios dos cemitérios. Sim, hoje em dia a medicina fez muitos avanços, porém, a partir de uma certa idade, a pessoa é mantida viva quase sem nenhuma dignidade. Enquanto isso, os bolsos dos profissionais da saúde, e dos hospitais e laboratórios, engordam. O sistema, me parece, ainda é bastante darwiniano. Que morram os mais pobres mais rapidamente, assim deixam de onerar o governo com suas aposentadorias e seguros saúde!

Muito tem se falado sobre o tal Obamacare. Pessoalmente, até agora foi um desapontamento para mim, com certeza porque as seguradoras têm gente muito esperta trabalhando para elas, que souberam fazer a coisa. Meu seguro, que cobre duas pessoas, me custa a bagatela de US$1,057.00 por mês. E só paga o primeiro centavo de cobertura a partir dos primeiros 12.000 dólares de gastos acumulados, por ano. Sim, esta é a bela franquia, 12.000 dólares acumulados! Dado o histórico e saúde meu e de minha esposa (nunca chegamos perto de gastar isso num único ano), provavelmente vai demorar algum tempo para eu sentir um real benefício. E tudo isso, aparentemente, é legal. Juridicamente legal, óbvio.

Temos as pressões da globalização, da futura falta de água fresca, ao mesmo tempo em que aumentará o nível da água salgada dos mares.  Ou seja, melhor já ir comprando um lugarzim na montanha, ou nos planaltos, pois as praias sumirão em 30, 40 anos, dizem uns. Uns também dizem que estamos com aumento global de temperatura, outros, que estamos numa pequena era glacial! Sem contar que os chineses podem resolver pular todos ao mesmo tempo e fazer o planeta tremer, e existe sempre a simpática ameaça dos raios gama solares atingirem a Terra e fritar nossos aparelhos cibernéticos, etc. E do Fidel Castro ainda viver mais uns 40 anos.

Enfim, não vejo com olhos muito otimistas o mundo em 2060, quanto atingir a tal idade mágica. Para mim, a vida centenária me parece uma roubada, e de mágica, nada tem.

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