Entendo a lei da oferta e procura. Entendo que, com a internet, a imprensa, o jornalismo, assim como diversos outros setores, tiveram que se reinventar, correndo o perigo de tornarem-se redundantes. Sinto isso na pele, pois o setor de traduções foi um dos mais afetados pela revolução tecnológica. Afinal de contas, quando o google faz traduções de graça, é difícil você convencer alguém que pago é melhor, pois o google é o google, e é grátis.
Obviamente, o mesmo ocorreu com a imprensa, principalmente o jornalismo clássico, de jornais diários, com rotativas, distribuição em banca. Muitos jornais já se foram para o cemitério dos periódicos nos últimos anos, e alguns outros parecem seguir celeremente o mesmo caminho.
Tudo ficou muito bagunçado hoje em dia. O que era imprensa séria, há vinte anos atrás, hoje é obrigada a dar grande ênfase às novelas globais, BBBs e cada passo da Madonna, pois jornalismo virou entretenimento, entertainment puro. Há um grande jornal que não perde a oportunidade de colocar matérias na sua página principal sobre mamárias (câncer de mama, amamentação, etc) só para poder ilustrá-las com vistosas peitamas em flor. Isto num jornal que um dia foi considerado o mais influente do Brasil.
Sim, é a lei da oferta e procura. Poucos ainda continuam pagando pelo jornal em banca, menos ainda assinando na internet, e para chamar leitores online, e rezar que alguém clique nos anúncios, é preciso as peitamas, especulações sobre a calcinha da Lindsey Lohan (ou falta da mesma), sem contar com uma dose extra-forte de tudo que é fútil, e "da hora".
A imprensa, o jornalismo, diria, tem a função de reportar os acontecimentos, porém, também tem um componente proativo. E imagino que este componente proativo de informar tendências (econômicas, políticas, etc, estou falando de coisas sérias, do futuro da humanidade) se não se foi completamente pelos ares, está próximo de ir.
Todo tipo de racismo é sem dúvida lamentável, e deve ser relatado. Sinto isso na pele, afinal de contas, moro no exterior há 38 anos e sou objeto de preconceito de tudo que é lado. Além disso, sou surdo. Mesmo assim, achei um pouco desmedido o espaço que foi dado, tanto no Brasil como nos EUA, a dois eventos de racismo, os dois em esportes populares - o caso da banana no Dani Alves e do racismo declarado por um dono de um time de basquete da principal liga do mundo, a NBA. Fizeram bem os jornais de relatar os acontecimentos, porém, não se parou de falar no assunto, ao ponto que o Facebook de alguns dias atrás parecia o vale do Ribeira, de tanta banana. Chegou uma hora que ficou cansativo DEMAIS.
Nestes últimos dias estou lendo um livro sobre a derrocada das empresas X. Confesso que sempre olhei com um pouco de suspeita a rapidíssima inserção das jovens empresas no panteon dos gigantes mundiais, rankings de Forbes, etc. Sou diplomado em geologia, e sei um pouco das dificuldades tanto do ramo de mineração como petrolífero, sob um ponto de vista técnico. O que mais me supreendeu, entretanto, foi saber que o mesmo senhor que estava à frente destas empresas, tinha um histórico curioso no mundo dos negócios, num passado recente, e em diversos setores. As mesmas hiperbólicas alegações feitas por EB no caso das X, foram feitas na sua empresa de jipes e no caso da empresa de logística que seria a maior concorrente dos Correios em um par de anos. E o resultado das duas foi igual.
Não se trata de dizer que houve desonestidade, no strictu sensu, não acho que houve. Acredito que EB realmente cria em tudo que disse, tem doses cavalares de otimismo, muito carisma e sabe convencer. Sabe vender seu peixe como poucos. Além de ter outros atributos como boa aparência, eloquência, ter sido esportista bem sucedido, falar diversos idiomas e ter sido casado com uma modelo famosa. O problema não é EB. Ele fez o que todos nós fazemos diariamente ao sair de casa e ir para o trabalho, tentar vender nosso peixe.
O que eu não entendo é como a imprensa, inclusive os supostos jornais "sérios" se deixou levar pelas dezenas, centenas de comunicados de imprensa, coletivas, comunicados de fatos relevantes, aparentemente sem qualquer filtro ou ponderação...Por que, se não me falha a minha memória, nenhum jornal ousava questionar em nada a meteórica ascenção do império X, lá por volta de 2006 a 2010, todo mundo batia palminhas, achava lindo, plausível e factível.
Não precisava ir muito longe. Seria saudável pelo menos alertar, dizer para as pessoas que tivessem cuidado, informar que alguns dos empreendimentos anteriores do Sr. EB não tinham alcançado tanto sucesso, trazer à tona uma discussão. Não se trataria de esculhambar, de difamar o empresário, algo tão insidioso quanto o racismo, a meu ver. Porém, a função de alertar, de proatividade, parece que nossa imprensa não faz há já algum tempo. Limita-se a narrar os fatos quando a bomba explode.
Muita gente acabou perdendo dinheiro, o que é normal no mercado de capitais, até mesmo com empresas em franca atividade e de sucesso, porém, imagino que muita gente que não podia perder, o fez por falta de informação, omissão da imprensa.
Onde estava a imprensa em 2006, 2007? Por que ler um livro a posteriori não resolve muita coisa. Aliás, não resolve nada para quem perdeu as calças.
Na realidade, na época provavelmente você teria teria muitos artigos ainda sendo escritos sobre as saltitantes peitamas de Janet Jackson no Superbowl, as capas da próxima Sexy, ou relatórios constantes sobre as desventuras de nossos futebolistas no Uzbequistão ou Farofistão. Ou seja, disfunção. Disfunção pura.
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